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Os desafios da integração de Robôs Móveis (AMR / AGV)

Written by Carla Oliveira | 13-01-2026 12:24

Como integrar robótica móvel em fábricas já existentes?


A integração de robótica móvel em fábricas já existentes é um dos desafios da automação industrial atual. Ao contrário de instalações novas, onde tudo pode ser pensado de raiz, as fábricas em operação trazem consigo constrangimentos físicos, tecnológicos e humanos que não podem ser ignorados.

Ainda assim, é precisamente nestes ambientes que a robótica móvel pode gerar maior valor, desde que seja implementada de forma realista e bem planeada!

1. O desafio: a fábrica real

Fábricas existentes são organismos vivos. O layout evoluiu ao longo dos anos, existem máquinas de diferentes gerações, fluxos informais de materiais e pessoas, e processos que funcionam mais por hábito do que por desenho técnico.

Integrar robôs móveis neste contexto significa lidar com:

  • Corredores estreitos e zonas de passagem partilhadas;
  • Obstáculos variáveis (paletes, carrinhos, pessoas);
  • Sistemas de controlo antigos ou pouco documentados;
  • Operadores habituados a métodos manuais.

Ignorar esta realidade é uma das causas de falha em projetos de robótica móvel.

 

2. Começar pelo processo, não pelo robô

Um erro comum é escolher o robô antes de analisar o processo. Em fabricas já em funcionamento, o ponto de partida deve ser sempre o fluxo logístico:

  • O que é transportado?
  • Com que frequência?
  • Entre que pontos?
  • Com que variabilidade?

Muitas vezes, pequenas alterações no processo (por exemplo, normalização de contentores ou pontos de recolha) têm mais impacto do que escolher um robô mais sofisticado.

3. Layout existente: adaptar em vez de reconstruir

Uma das grandes vantagens dos AMRs (Autonomous Mobile Robots) é a capacidade de navegar em ambientes dinâmicos sem necessidade de guiamentos físicos. No entanto, isso não significa que o layout não precise de ajustes.

Em fábricas existentes, é comum ser necessário:

  • Definir corredores para circulação dos robôs;
  • Criar zonas de cruzamento bem sinalizadas;
  • Melhorar a organização do chão de fábrica;
  • Eliminar obstáculos recorrentes.

Não se trata de reconstruir a fábrica, mas de tornar o ambiente mais previsível — algo que beneficia também os operadores humanos.

4. Integração com sistemas existentes

Em fábricas em operação, a robótica móvel tem de coexistir com sistemas existentes, como:

  • PLCs de máquinas;
  • Sistemas MES ou WMS;
  • Sistemas de gestão de produção e logística.

Na maioria dos casos, a integração é feita de forma simples e incremental, recorrendo a sinais digitais, OPC UA ou interfaces via API, evitando intervenções profundas em sistemas existentes.

É fundamental definir claramente a lógica de decisão: quando o robô deve iniciar um movimento, quando deve aguardar e como lidar com exceções ou falhas.

5. Segurança em ambiente partilhado

A segurança é um fator crítico quando robôs móveis operam em espaços partilhados com pessoas. O cumprimento de normas como a ISO 3691-4 é essencial, mas a segurança vai além da conformidade normativa.

Na prática, é necessário:


  • Ajustar zonas de segurança à realidade do espaço;
  • Evitar paragens excessivas que prejudiquem a produtividade;
  • Testar cenários reais de circulação e interação humana.

Um sistema demasiado conservador pode gerar frustração e baixa aceitação; um sistema permissivo compromete a segurança. O equilíbrio é fundamental.

6. O fator humano como elemento central

Os operadores conhecem a fábrica melhor do que qualquer modelo teórico. Envolvê-los desde as fases iniciais do projeto permite:

  • Identificar riscos e limitações reais;
  • Melhorar a aceitação da tecnologia;
  • Reduzir comportamentos de contorno ou uso incorreto do sistema.

A robótica móvel não elimina o papel humano, mas transforma a forma como as pessoas interagem com os processos logísticos.

7. Provas de Conceito (PoC): testar antes de instalar

Provas de Conceito (PoC) podem desempenhar um papel fundamental na instalação de robôs móveis (AGV/AMR), mas são frequentemente confundidas com simples demonstrações. 

Uma PoC não tem como objetivo “mostrar o robô a funcionar”, mas sim validar conceitos críticos antes da implementação final. Neste contexto, o foco está em testar cenários reais de operação, condições de trabalho específicas, variações de layout, fluxos logísticos, exceções operacionais e o nível de complexidade dos processos envolvidos. Além disso, a PoC permite avaliar de forma prática os desafios de integração com sistemas existentes (WMS, ERP, MES), a robustez da navegação, o comportamento em ambientes dinâmicos e a escalabilidade da solução. Ao antecipar riscos técnicos e operacionais, a prova de conceito reduz incertezas, evita decisões baseadas apenas em expectativas teóricas e fornece dados objetivos para uma implementação mais segura, eficiente e alinhada com as necessidades reais do cliente.


Com a PoC conseguimos:

  • Redução de risco: permite identificar limitações técnicas, operacionais e de integração antes do investimento definitivo;
  • Validação em contexto real: testa processos, layouts, exceções e variabilidade operacional nas condições reais do cliente;
  • Decisões baseadas em dados: fornece métricas objetivas sobre desempenho, fiabilidade, escalabilidade e impacto nos fluxos logísticos;
  • Alinhamento entre equipas: cria uma base comum de entendimento entre cliente, integrador e fornecedores de tecnologia, evitando expectativas irreais.

8. Projeto Piloto: uma opção mais simples

Uma das formas mais eficazes de introduzir AMRs numa fábrica existente é através de um projeto piloto, em vez de avançar diretamente para uma implementação em larga escala.

Tipicamente, este piloto envolve a instalação de um único AMR a operar num circuito limitado da fábrica, com um fluxo bem definido e controlado. Esse circuito pode, por exemplo, ligar uma linha de produção a um armazém intermédio, a um supermercado de materiais ou a um ponto de abastecimento. O objetivo é simples: validar o desempenho do robô em condições reais de operação, reduzindo a complexidade inicial.

Além de exigir um investimento inicial mais baixo, o projeto piloto é essencial para confirmar se o ambiente existente está preparado para robótica móvel e quais os ajustes necessários antes de escalar a solução. É nesta fase que muitos pressupostos teóricos são testados na prática e, muitas vezes, revistos.

Alguns dos aspetos críticos que são validados durante o piloto incluem:

  • Condições físicas do ambiente, como a qualidade e planicidade do piso, largura útil dos corredores, zonas de cruzamento, rampas, portas automáticas e a organização geral do layout;
  • Interação com pessoas e outros meios de movimentação, nomeadamente empilhadores, porta-paletes manuais e tráfego pedonal, avaliando regras de prioridade, velocidades e comportamentos em situações de conflito;
  • Requisitos de IT e comunicação, incluindo cobertura e estabilidade da rede Wi-Fi, latências aceitáveis, integração com sistemas existentes (MES, WMS, ERP) e gestão dos dados gerados pelo AMR;
  • Definição de processos operacionais, como pontos de carga e descarga, tempos de espera, gestão de exceções e procedimentos em caso de paragem ou falha.

Ao operar num ambiente produtivo real, o projeto piloto permite identificar limitações que dificilmente seriam detetadas apenas em fase de planeamento ou simulação. Essas lições tornam-se uma base técnica sólida para decisões futuras, reduzindo surpresas numa fase de expansão.

As principais vantagens desta abordagem são claras:

  • Menor investimento inicial;
  • Risco técnico controlado;
  • Envolvimento gradual das equipas de produção, logística e manutenção;
  • Definição objetiva dos requisitos para expansão da solução ao resto da fábrica.

Além disso, o projeto piloto permite recolher dados reais sobre tempos de ciclo, taxas de paragem, ocupação do robô e interação com operadores. Estes dados são fundamentais para calcular o retorno do investimento, ajustar processos e dimensionar corretamente uma futura frota de AMRs.

9. Conclusão

Integrar robótica móvel em fábricas já existentes é sobretudo um desafio de engenharia de sistemas e gestão da mudança. Exige compreensão dos processos, respeito pela realidade do chão de fábrica e uma abordagem faseada e realista.

Quando bem planeada, a robótica móvel transforma limitações em oportunidades, trazendo flexibilidade, eficiência e segurança a ambientes industriais complexos e em constante evolução.